Religião e política: por que não consigo lidar com essa conexão
- Rodrigo Contrera
- 14 de ago. de 2018
- 3 min de leitura

Sou um quase recém-reconvertido. Nasci numa família cristã, passei pelos Testemunhas de Jeová, fui seduzido pela Opus Dei, fiz primeira comunhão, traduzi muitos livros da Teologia da Libertação, me desencantei de Deus e, após muita crise, me reaproximei do catolicismo recentemente. Ocorre que tenho formação forte em Filosofia e não gosto de bobagens, superstições, crendices bobas e culto de coisas que não têm nada a ver com a fé.
Aproximei-me da religião fortemente. Faço catequese para conseguir a crisma, e fui escolhido muitas vezes para ler a Bíblia na missa do santuário que frequento. A missa mais concorrida. Tornei-me conhecido para gente a mais diversa, boa parte dela de bairros próximos e mais pobres do que o meu, de classe média. Participei de tudo com muita fé mas também bastante relutância, em alguns momentos. Não gosto de demonstrações excessivamente efusivas de fé. Nem de me sentir usado pela instituição para outros fins.
Recuso-me a tratar com excessiva reverência pessoas que têm cargos religiosos. Nem assino embaixo de opiniões políticas ou de costumes muito comuns na comunidade. Sou um sujeito bastante experiente, e não me deixo levar pelas opiniões dos outros. Sou conservador desde criança, mas não sou retrógrado e não gosto como muitas vezes vejo pessoas de estratos minoritários são tratadas. Não crio problema, mas prefiro não me pronunciar a respeito, porque brigo até o fim.
Por isso, quando este domingo um sujeito da igreja apareceu na catequese para falar de política me irritei muito, profundamente. Ele não falou nada de mal, especificamente, mas eu me irritei especialmente porque sei que ele é candidato a cargo - embora não tenha expresso isso na reunião. Tive que me controlar para não arrumar encrenca. Ele divulgou um documento da CNBB a respeito da eleição, e ficou mais ou menos por isso mesmo. Mas meus colegas ficaram olhando para mim, enquanto eu espumava de raiva.
Mas o sujeito foi embora, eu esqueci e parecia que tudo havia sido superado. Claro que mais ou menos. Pois os meus colegas de catequese não pareciam tão críticos quanto eu. Ao contrário, eles aplaudiram, se deixaram levar pelo sujeito, e fizeram - se bem que em grau pequeno - o tão desejado - para os opressores - papel de rebanho. Foi aí que me dei conta do papel que tudo aquilo representa, inclusive do meu papel de assistente, e por não criticar, de rebanho bem comportado. Pouco importa no caso minha opinião profunda. Importa que eu aceitei.
Hoje vi o começo de um programa com um religioso muito conhecido e perguntas sobre política. E reparei como ele não pareceu se recusar a assumir um papel importante em termos de formação política. Pergunto-me: com base em quê? O que lhe dá autoridade para se supor relevante na condução política da sociedade, se ele é apenas um clérigo, e apenas para os seus fiéis? Pois bem, não importa. O sujeito se considera politicamente engajado, e assim temos que considerar o seu papel. Mesmo que discordemos disso.
Tenho me tornado mais conservador com o passar do tempo. Algumas bandeiras que antes faziam sucesso no meu caso hoje não me atingem. Outras posições, mais conservadoras, batem mais fundo em mim - e não apenas por motivos religiosos. Isso eu considero que é algo normal para todo aquele que se envolver com instituições que utilizam normas heterônomas para conduzir os seus fiéis. Isso é algo sempre consentido, e quase sempre sem o devido cuidado. Mas cada um sabe o que faz. O erro a meu verr está em as instituições se colocarem à parte nas discussões mais candentes, e se colocarem acima, mais do que à parte. Isso é indevido, e recuso qualquer intromissão em minhas escolhas como cidadão.
Este post foi mais um desabafo do que qualquer outra coisa.




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