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POR QUE JAIR BOLSONARO É UMA AMEAÇA E DEVE SER LEVADO A SÉRIO

  • Foto do escritor: Rodrigo Contrera
    Rodrigo Contrera
  • 20 de jul. de 2018
  • 32 min de leitura


Esqueçam as pesquisas por um instante. Esqueçam os comentários preconceituosos de muitos de seus partidários. Esqueçam o suposto revisionismo histórico de muitos de seus apoiadores. Esqueçam também seu perfil de homem branco, pró-mercado, pró-porte de armas, contra gays, etc. Esqueçam um pouco isso. Tentemos ver Jair Bolsonaro de uma forma menos forçada. Jair Bolsonaro não é bem isso. Nem o contexto permite avaliá-lo dessa forma. Vivemos num regime de exceção. Entendamos que ele é um candidato de exceção, e portanto é dessa forma que precisa ser compreendido. Tentem ser mais comedidos no diagnóstico, pelo menos. Não lhes peço que pensem o sujeito de outra forma. Sugiro que pensem de forma mais distanciada para podermos ter uma posição mais madura, mais prenhe de achados analíticos.


Notem. Bolsonaro é um sujeito de origem branca e militar. Não importa como ele se comportou na caserna, nem se fez algo errado para os militares, nem se tem méritos enquanto militar. Ele é um sujeito de origem militar, e assim é visto pelas pessoas que o abordam. Mas, apesar disso, é um sujeito que, com méritos ou deméritos, fez carreira, seja como for, no ambiente civil. Notem que as pessoas não abordam um civil e um militar, em nenhuma parte do mundo, da mesma forma. Um civil é um sujeito encarado de uma forma; um militar, de outra. Bolsonaro é um militar que trafega no ambiente civil. E que faz uso do seu discurso neste último ambiente.


Notem então que esse perfil de Bolsonaro, independente de seu mérito, de seu linguajar, de suas propostas, colocam-no num lugar à parte. Aproveito para dizer aqui: o que é que todos odeiam atualmente? Políticos, de forma geral. O que é Bolsonaro, formalmente? Um militar que fez carreira isolada - notem esse aspecto em particular - como político. Mas um sujeito que não é identificado formalmente como político. É - para quem não conhece política, principalmente - um sujeito anfíbio, um infiltrado num ambiente tomado pelas gangues da política contemporânea.


Vejamos agora o sujeito. Bolsonaro é um sujeito autoritário, mas que diz o que pensa. Um sujeito que peca em parte por isso, mas que arrebata simpatias por ser aparentemente ingênuo ao dizer o que ninguém tem vontade nem coragem de fazer - falar o que se pensa. Esqueçam por um momento se ele diz ou não a verdade. Ele diz o que pensa, e os políticos são identificados com o quê, de forma geral? Com todo o oposto. Com gente mentirosa. A mentira domina a sociedade. Todos nós, confrontados com alguma situação mais ou menos atraente, mentimos. Todos nós somos coagidos pelo sistema e por isso aos poucos mentimos mais e mais. Já Bolsonaro, aparentemente não. Ele diz o que pensa. Se o que ele pensa é adequado ou não, é outra coisa. Ele simplesmente diz o que ele considera que seja a verdade. Não se pode questionar que isso atrai muito. Pensemos nos concorrentes dele: sempre que se metem a falar algo, em seguida precisam se desdizer. Bolsonaro, não. Ele não se desdiz, não pede desculpas, simplesmente continua o jogo.


Bolsorano é um sujeito que se destaca por ter uma oratória clara (se é factível ou não, isso pouco importa). Bolsonaro fala de sexo, fala de tortura, fala de armas, fala de coisas que são claras, que todo mundo conhece ou sobre as quais tem uma posição. Não se vê Bolsonaro falando sobre algo sobre o que não entende. E do que ele entende? De coisas que dizem respeito ao uso da força. O uso da força todos nós conhecemos, seja enquanto autoritários, seja enquanto pessoas achacadas pela autoridade (polícia, militares, etc.). Pouco importa se todos nós somos vítimas da sociedade, se apanhamos de policiais, etc. Todos nós conhecemos o que é o uso da força, já vimos roubos, assassinatos, brigas, etc., e portanto temos uma ideia do que a violência seja. Quero ressaltar aqui apenas que Bolsonaro fala de algo sobre o que temos vivência. Não fala de sistema financeiro, não fala de situação internacional (diplomacia, quero deixar claro), não fala de nada complicado. Bolsonaro fala uma linguagem que é compreendida por qualquer pessoa. Se a gente concorda ou não com ele, pouco importa. Ele consegue falar para a gente, a gente concordando ou não. E nunca passa portanto despercebido.


No vocabulário bolsonarista, tudo parece que é vertical. É ordem. É de cima para baixo. E inquestionável. De uma forma perfeitamente militar. Pois bem. Lembrem-se do locaute/greve recentes. O que pediam os intervencionistas? Um chega para lá em tudo o que existe. Um ato de força. Algo que venha de cima e que faça todo mundo obedecer. Claro que esse tipo de pensamento aparece numa democracia ao arrepio do próprio funcionamento do regime democrático, composto de três poderes, com muitos poderes intrincados em seu meio, e em que nada aparentemente vem de cima para baixo. Pois bem. Bolsonaro sabe disso. Mas em seu discurso isso não aparece. No que diz respeito a ele, ao seu discurso, e ao seu papel, tudo parece (notem o verbo parecer) fácil. Tudo parece que virá de cima para baixo, como uma intervenção militar.


Ou seja, é como se ele fosse um sujeito militar, com função civil, que pretende ocupar um cargo civil mas com índole e posição militares, intervencionistas. Notem como isso faz sucesso. Porque é bastante claro: quando tudo está uma bagunça, geralmente tendemos a querer um sujeito que bata com o punho na mesa e faça tudo terminar. Isso é o chamado poder de soberania utilizado pelo Schmitt, um teórico político de índole nazista. Bolsonaro, com seu discurso, faz crer que em seu mandato a democracia será intervencionista, para valer, que realmente trará uma solução para os problemas do país.


Bolsonaro não se preocupa, ao menos publicamente, em desdizer nem desfazer nada do que disse ou do que fez. Isso porque ele sabe muito bem que vivemos numa sociedade em que todos os que têm uma postura realista ou aproveitadora (vivemos numa sociedade que se aproveitou da escravidão por 500 anos, porra) querem o Estado para si mesmos, mas que não sabem como fazer isso acontecer. Por isso, não se preocupa em desdizer que ele mesmo se aproveitou do Estado para sua família ou para seus poucos ou nem tão poucos apaniguados. Porque ele sabe muito bem que ninguém, neste contexto, é ingênuo. Todo mundo, principalmente os mais pobres, precisam ou querem uma boquinha. Todos querem se dar bem (como ouço o Cazuza agora). Ou seja, ele não se preocupa em aparentar ser incólume a como o sistema funciona. Isso porque ele também sabe que isso é impossível. Que quando a pessoa sobe de ranking normalmente se torna atraente para os poderes do mercado, da grana que rola solta, e ele sabe muito bem que ninguém tem suficiente poder de convicção para resistir. Mas ele posa disso. Em nome de quê? De um país forte (seja lá o que isso signifique) que acredita em Deus. Isso é fácil de digerir, para qualquer um. Ou seja, ele fala o que todo mundo quer ouvir. E tem perfil autoritário que lhe permite fazer crer que irá conseguir. Vêem como ele atrai o voto fácil, ou quase sem valor?


Continuo meu texto de marketing político, tentando entender por meio de analogias por que o candidato à presidência Jair Bolsonaro tem conquistado tantos adeptos e por que as pessoas que querem entendê-lo e combatê-lo precisam levá-lo a sério. Utilizo apenas o meu feeling sobre política e marketing, além de algumas amostras sobre ele coletadas nas redes sociais.


Jair Bolsonaro deve ser levado a sério porque é um fenômeno de marketing político. Porque arrebanha seguidores e apoiadores a rodo, sem precisar de ter uma sigla importante nem um ideário econômico claro, e porque quem o apoia acreditar piamente saber naquilo em que está se metendo. Porque quem o apoia sente segurança. Porque insiste em dizer que finalmente tem quem o representa. Porque sai por aí desancando os "inimigos" e porque não quer conversa. Simplesmente assumiu a sua opção, e acabou. Só resta aos outros arcar com o cinismo de quem se acredita dono do mundo.


Notem que quem apoia Jair Bolsonaro não costuma ser comedido em suas demonstrações. Faz isso quando não pode, e mesmo quando não deve, e inclui âmbitos que não têm nada a ver com política, como a própria família. Veste seus filhos de roupas com o Bolsonaro como candidato, expõe sua opinião em reunião de família ou de amigos, não está nem aí. Para ele, Bolsonaro é como uma marca a sair por aí exibindo, uma marca que ele considera de grife e que o colocaria acima da opinião geral. Faz uso de gestos de extermínio, como se fosse um Stallone Cobra, e posta óculos escuros posando de esperto. Considera-se acima da carne seca, e acha que todo aquele que não concorda ou é petista, ou é intelectual brocha, ou é um sujeito que não faz questão de assumir seu lugar. Homem, branco ou não, chefe de família, possuidor da última palavra, e defensor dos bons costumes em público, mas não necessariamente em privado.


Os apoiadores de Jair Bolsonaro costumam surgir daquele grupo que até então posava de apolítico. Ou mesmo de amoral, em termos políticos. Aquele tipo de pessoa para a qual toda política era uma merda, não valia a pena discutir, tudo era resolvido em reuniões fechadas mesmo, e a saída era aproveitar o que restasse, para quem não fazia parte da turma. Desta vez, esse tipo de sujeito, que nunca participou ou não gosta de participar de nada, tem afinal posição. Posa de contra tudo e contra todos, assume Bolsonaro como divisa, não quer discutir nenhum assunto que envolva costumes, e sai pela tangente quando a barra pesa em termos conceituais. Como não tem traquejo, insiste no bordão do jair se acostumando, e assim sendo fica ainda mais convencido até mesmo do que mal entende. Porque no fundo ele não quer entender. Nunca quis. Mas agora tem lado.


Isso significa que os sujeitos que apoiam Bolsonaro costumam ser (embora não sejam todos) aqueles sujeitos que votam ou deixam de votar, mas que nunca deram nem darão valor à política. Sujeitos acostumados a obedecer, mais do que a mandar, a não discutir assuntos públicos, porque simplesmente consideram-nos desimportantes. A não darem valor a questões de costume até que os atingem (como por exemplo à eventualidade de terem filhos gays), a tomarem para si a autoridade de decidir sobre assuntos determinados por lei, ou a tomarem a lei pelas próprias mãos. Não à toa são sujeitos autoritários, que não admitem insegurança quanto ao mundo que os rodeia, que classificam as pessoas bastante claramente, em seu trato diário, e para os quais o mundo é composto, no fundo, de vencedores e perdedores. Claro que eles não se consideram perdedores, e claro que querem estar do lado dos vencedores. Aqui, a ligação é clara, Bolsonaro é foda, ele está na frente, estou com ele até o fim. É assim que pensam esses sujeitos que nunca deram e nem darão valor a qualquer política mais madura. Democracia? Nem sabem a que se refere.


Jair Bolsonaro, como candidato, pensa como militar. Militar, como todos sabemos, vê o mundo de forma binária. Amigo, inimigo. Quem não está a meu favor está contra. E essa forma de pensar é fácil de entender. Pois quando vamos num bar temos de saber com quem falar, e quem desprezar. Quando estamos numa empresa temos de saber com quem entabular conversa e com quem isso não adianta. Sabemos também que em geral precisamos falar com quem decide, e que os outros no fundo não importam. Porque pensar assim é fácil de entender para quem vive no mundo real. Gente que vai direto ao ponto, que fala com quem decide, que escolhe rapidamente o preço a pagar, e que pronto, sai na frente dos outros.


Pensar como Jair Bolsonaro não é nada confuso. Tudo se torna claro. Gay é gay. E portanto é alguém, segundo essa lógica, que se deve evitar. Mulher é mulher, e portanto, segundo essa lógica, é para ser tratada como tal. Filho não tem muita voz. Autoridade tem que ser respeitada. Mendigo é vagabundo, então fora daqui. Tudo, dessa forma binária, é bastante claro. Não precisamos pensar muito a respeito. A gente se sente seguro pensando assim. A autoridade estaria restaurada.


Continuando minha série de textos sobre Jair Bolsonaro, falarei agora algo do contexto em que ele surgiu, como ele se impôs enquanto discurso de parcela do eleitorado, alguma similaridade com rebentos de outros países e com outros percursos históricos, assim como a sua ligação com movimentos cívicos organizados, assim como com o estourar do novo conservadorismo brasileiro a partir das manifestações de 2013. Não irei me ater a aspectos duvidosos (como, por exemplo, se a direita recente é mesmo nova, ou se ela resolveu mesmo crescer), nem a aspectos que digam respeito à política efetiva, nos bastidores ou na imprensa em geral.


O fenômeno Bolsonaro surgiu quando a social-democracia brasileira do PSDB (se é que assim pode ser chamada) e o PT estavam no poder. Surgiu na contramão de um regime democrático que parecia sustentável, e que dava mostras claras de como, ele mesmo, não conseguia resolver seus dilemas. Surgiu do meio militar, opondo-se a tudo e a todos, encontrando um lugar no sistema para poder observá-lo por dentro, como se fosse uma espécie de espião. Mas um espião de índole especificamente militar. Surgiu também na contramão do amadurecimento das rusgas entre capitalismo x socialismo no mundo tudo, dado que, embora a URSS tenha afundado enquanto oposição clara ao imperalismo ianque, continuou se desenvolvendo nos países em que teve influência (inclusive no Brasil). Bolsonaro soube assim passar esse tempo todo avaliando, como homem de mentalidade militar, as fraquezas e os dilemas da democracia, assim como aprimorando o discurso. Experimentou suas diatribes em programas de tv que hoje ficaram amplamente famosos, por suas tiradas antigays, antidemocracia, a favor da bala e coisas e tal. Ele fez de sua carreira parlamentar uma base segura em que pôde destrinchar as mazelas que via, assim como estabelecer uma nova base discursiva. Claro que do seu jeito bem particular. Começou efetivamente a surgir em âmbito nacional somente com a manutenção do PT e seus governos politicamente desastrosos, amplamente corruptos. Não se envolveu demais naquilo que acontecia. Aparentou estar atento, mas distanciado dos escândalos mais absurdos.


Nesse passo, a sociedade brasileira não amadureceu sua democracia. Muito ao contrário, os governos peesedebistas foram anódinos nesse sentido, e o PT, quando assumiu, tratou logo de aparelhar o Estado aos seus objetivos de poder (que não ficaram apenas no Brasil). As eleições que foram acontecendo apenas reagruparam movimentos anteriores, e incorporaram novos atores que não se interessaram em amadurecer a sociedade e os movimentos cívicos de forma tal que pudessem se opor a qualquer discurso autoritário. Nesse ínterim, surgiram e cresceram gerações de todos os tipos, e o brasileiro comum, afeito a apenas sobreviver, mal deu bola aos dilemas da democracia dos seus anos de formação. O brasileiro comum mal tem uma clara ideia daquilo que havia sido a ditadura; viveu recessões, mas não as interpretou como se se devessem à democracia; simplesmente não sabe de forma clara como a democracia funciona, e acho esse tempo todo que as coisas teriam de ser assim mesmo. Mas, com a disseminação de informações, e com as margens cada vez menores de manobra num mundo dominado pelo discurso das minorias, foi ficando de saco cheio. Começou a entender que essa democracia de que todos falam não havia sido feita para ele mesmo, e foi ficando agressivo. Começou a sentir saudade de algo que não havia vivido - a ditadura - e desconfiança do papo de gente que defende o entendimento. Começou então a entender que a solução era romper com isso que acontecia, e portanto a defender posturas aprendidas desde a infância. Passou a sentir falta da noção de autoridade, e nostalgia de algo que mal teve a oportunidade de conhecer - uma sociedade, ao menos teoricamente, bem gerida, sem bagunça, sem tanta morte, sem tanta ameaça, sem tanto babaca falando sobre cotas a favor de gente que ele sempre desconsiderou. Sentindo o espaço se estreitar, esse brasileiro médio passou a ansiar por alguém que falasse sua língua. Achou esse espaço em Bolsonaro.


Note-se que, ao falarmos de Jair Bolsonaro, estamos falando de um sujeito criado civilmente entre as décadas de 90 e de 2010, ou seja, num período em que a abertura dos arquivos soviéticos passou no mínimo a criar dúvidas quanto ao panorama histórico que conhecíamos. Ou seja, em que todos os atos de ambos os lados (esquerda - direita) passaram a ser olhados de outra forma. Em que os ídolos viraram no mínimo suspeitos, em que os vilões passaram a sujeitos a serem ouvidos, em que os cadáveres já não pareciam mais ter relevância, ao menos os cadáveres da época da ditadura. Ou seja, em que tudo o que pensávamos sobre esquerda e direita passou a ser colocado em questão. Não estou dizendo que os revisionismos façam sentido. Estou dizendo que eles ocorreram, e que passaram a ser usados politicamente para moldar novas cabeças, em novos moldes, e com novas ambições.


Isso não ocorreu apenas no Brasil. A Europa passou por isso, e deu no que deu em lideranças de direita tanto na Alemanha como na França, assim como Inglaterra. Deu em demonstrações de xenofobismo atrozes que passaram a cabeça justo naqueles que tanto mal haviam feito até estourar a Segunda Guerra. Mas lá a sociedade tem uma educação bastante. Lá os papos xenófobos não pegam mais tão bem. Lá os hitleristas são achacados (justamente) e colocados contra a parede. Mas aqui no Brasil é diferente. Vivemos numa sociedade de gente ignara, de pessoas que quando muito sabem seus direitos, mas em que as pendengas são geralmente resolvidas, em última instância, na bala. Uma coisa é vc falar de Hitler na Alemanha, outra muito diferente é encarar essa liderança com outros olhos aqui, num continente habituado a achacar e massacrar os inocentes, que normalmente não são de nossa cor nem de nossos costumes.


Mas Bolsonaro tem uma característica aparentemente clara, nesse quesito. Ele não busca, ao menos de forma acintosa, montar consensos com ninguém. Ele faz parte de seus grupos, que são pequenos e risíveis por características programáticas. Mas ele não se aproxima dos grupos que poderiam ter a ver com ele. Ao contrário, ele prefere limitar-se àqueles que conhece e deixar que os outros o procurem, como se fosse ungido de alguma coisa. Porque ele se vê realmente dessa forma. Pois, por mais que seja despreparado, ele sabe muito bem que isso não é tão relevante nesse mundo de imagens, em que um operário assumiu o cargo de presidente e ainda se mantém como o mais popular de todos. Ele confia no seu taco porque sabe que as pessoas, de direita ou de esquerda, são no fundo autoritárias como ele, não são democratas, e que se ele lhes der algo do que querem elas ficarão quietinhas, esperando apenas por mais. Porque venhamos e convenhamos, não podemos esperar que os seus opositores sejam no fundo democratas ao disputar o poder com ele. A democracia, nesse aspecto, é uma bandeira que o brasileiro não entende, o político não respeita e o mercado não quer ver livre. Poucos realmente assumem o preço da democracia. E para Bolsonaro ela é apenas a estátua da Justiça vendada por ele mesmo.


Muito do que é comentado neste trecho do artigo é de conhecimento público. Muito requer alguém ou grupos que consigam partir para explicações. Mas o eleitorado do Bolsonaro não precisa disso. Ele só faz uso de inferências coletadas aqui e acolá, ao acaso, em meio a inputs das redes sociais, e isso quase como uma brincadeira, mas para reforçar aquilo sobre o que já falamos. Simples bordões com os quais fortalece sua crença num candidato que, se formos ser bem sinceros, não existe. Mas, como ele precisa de algo mais profundo ou que fundamente isso que no fundo é um preconceito, ele se remete a Olavos, a MBLs ou a quaisquer outros divulgadores de mensagens pró-revisionismo histórico. Porque, quando o mais exaltado defensor de Bolsonaro precisa de referências, não consegue apenas se fiar nos vídeos em que o seu deputado fala algo de que ele gosta. Ele precisa saber quem é Ustra, por exemplo, quem é Maria do Rosário, falar algo mal da Gleici Hoffmann, ou de algum outro personagem que ele não tem costume de acompanhar. Para isso servem os sites como Antagonista, os vídeos do Olavo, o pensamento de alguns formadores de opinião mais jornalísticos, etc. Mas isso, somente os mais exaltados e mais estudiosos defensores do Bolsonaro. Este no fundo, para ser seguido, dispensa tudo isso.

Já apontei uma série de fatores que demonstram por que a figura política e pública de Jair Bolsonaro faz crer que ele se assume líder messiânico, distanciado dos movimentos organizados relevantes, com discurso de cima para baixo, não necessariamente respeitador da política enquanto meio de vida, e por que seus seguidores insistem em entronizá-lo como representante, sendo que as pessoas que o seguem são em sua maioria distanciadas de qualquer compromisso com política enquanto meio de conduta, procedimento e defesa de bandeiras coletivas. Porque seus defensores são simplesmente entronizadores da autoridade, independente de onde venha, e porque assumem que assim sendo vale tudo na política se seus interesses de defesa do constituído prevalecer.


Mas é preciso ouvir o deputado para avançarmos mais em nossas conclusões. Não que seja difícil nem doloroso ouvi-lo. Bolsonaro sabe falar o que está em sua mente, de forma clara e distinta, e por isso sabe atingir quem, na média, pensa como ele. Não é preciso muito para reparar que ele tem traquejo na identificação com seu eleitorado. Ele sabe que precisa ter uma ponta firme em seu perfil para continuar sendo considerado uma opção séria para o cargo máximo. Porque ele aposta justamente nesses que concordam com seu perfil e suas arengas para continuar sendo uma opção viável da direita extrema. Note-se que Le Pen não conseguiu avançar demais na França, que os ingleses conservadores só conseguiram o Brexit por causa de maracutaia tecnológica, que na Alemanha os homens mais à direita são quase considerados animais amestrados. Mas no Brasil isso pode acabar sendo diferente. Bolsonaro, note-se, não é um Macri argentino, que tem ainda algum estofo. Bolsonaro tem na verdade todo um passado de obscurantismo para se opor àquilo que existiu desde a década de 90 no Brasil. Porque Bolsonaro consegue convencer de que é focado no futuro porque seu futuro é o passado. Simples assim.


Irei nos próximos textos abordar os temas assumidos por Bolsonaro em seus pronunciamentos no Youtube. Não irei me ater aos temas que a esquerda costuma usar para tentar acabar com ele. Não. Irei simplesmente tentar auferir impressões daquilo que ele mesmo diz com um intuito propositivo.


Continuo aqui minha série de pequenos ou não tão pequenos artigos sobre a candidatura do deputado Jair Bolsonaro à presidência da República. Quero deixar claro, para quem não leu os outros artigos, que não estou defendendo sua candidatura, mas que tento entender por que ela aparenta ter tanta força neste período conturbado e polarizado em que a emoção parece sobrepujar o tempo todo a razão. Nos artigos anteriores, comentei generalidades a respeito do perfil do deputado e aquilo que ele aparentemente representa. Aqui falarei algo a respeito dele, com base nas entrevistas que dá e no esboço de propostas que ele apresenta. Insisto que não estou assumindo lado, estou lendo tudo como se fosse um analista de marketing político.


Na democracia representativa, esperamos que nossos representantes nos... representem. Não assumimos saber tanto ou mais do que eles. Não nos considerados ao mesmo nível de seus contatos, de suas viagens, de suas experiências. Ao contrário, emulamos uma espécie de amizade, e com base nisso esperamos saber se, no seu discurso, ele fala para nossa cabeça e para... nosso coração. Essa característica muitos dirão que faz parte da liderança populista. Sim, faz. Mas não exclusivamente. Todo político busca, com base no seu carisma e em suas qualidades, promover esse tipo de identificação. Bolsonaro faz isso com maestria. É um sujeito cativante, que mesmo quando não fala algo que agrada a maioria passa o seu recado e causa estupor, assim como simpatia. Pois é como se ele desvelasse uma camada de verdades que, se não nos convence, nos traz a uma realidade antes desconhecida.


Não se pode dizer que ele seja simpático. Não se pode dizer que a gente simpatize com o seu jeito, de forma alguma. Ele é um sujeito que vez ou outra se fecha, fecha o rosto, e deixa bem clara sua posição a respeito de alguns temas, até mesmo com raiva. Não hesita em dizer que certos jogos são na base do tomar e levar, que certas coisas não são apenas uma vergonha mas que são crimes, que certos acontecimentos que acompanha ao longe são maracutaias. Ele parece sempre falar as coisas como elas são, para o entendimento de um leigo. E para ele tudo está bem esclarecido quando o poder que deveria se posicionar a respeito não faz a sua parte. De forma geral, naquilo que ele comenta, está sempre em questão a ideia de autoridade. Por outro lado, ele parece nos esclarecer quando responde a questionamentos relativos a costumes, a posturas genéricas sobre a economia, a posicionamentos que ele teria assumido diante de opositores (que lhe renderam ações dentro do Parlamento e até mesmo fora). Mas sempre ele faz questão de mostrar as coisas de forma mais transparente. Quando fala de Maria do Rosário, ele já deixa claro que quando falou a frase infeliz (não te estupro porque vc não merece), ele estava defendendo as vítimas de um estuprador e não o próprio (no caso do Champinha). Ou seja, ele mostra o contexto em que toda a discussão se acirrou, e deixa bem claro que, do seu ponto de vista, ele estava do lado bom. Ou seja, do lado da vítima. Assume também que de vez em quando se excede, mas considera que os opositores fazem conta disso com outros fins (para tirá-lo do pareo).


Por outro lado, ele se mostra bastante refratário a controles sociais como os estabelecidos pelo politicamente correto e pela esquerda de todos os matizes. Nesse sentido, se abre a qualquer demonstração de apoio e não considera haver nada errado nas críticas e zombarias que recebe. Ele se posta, nesse caso, como um sujeito em combate, e que portanto coloca a cara para bater. Nesse sentido, assume que o jogo é pesado mesmo, e que ele precisa se posicionar aberto às críticas. Não se vê Bolsonaro dando uma de coronel como o Ciro Gomes ou se calando quando confrontada diante de acusações injustificadas ou mesmo justificadas como Marina Silva. Ele sempre faz uso do mesmo recurso quando isso acontece: mostra o que aconteceu na hora, explica por que tomou a atitude que tomou, mostra que a postura teria sido adequada, e não considera haver nenhum problema em praticamente nada que assumiu no passado. Ou seja, mostra-se sempre como se estivesse aparentemente de cara lavada. Isso corrobora a imagem de transparente que ele faz questão de manter, e a postura de tomou - levou. Isso traz um claro senso de segurança para si, para sua mensagem e para seu ideal de sociedade, algo com que ele conta para pavimentar sua candidatura. Quando lhe perguntam se tem programa econômico maduro, ele não diz que sim nem que não. Ele simplesmente diz um fato, que o sistema financeiro não o considera seguro, e admite que terá que trabalhar para fazer o sistema trabalhar em seu favor. Quando diz o que fazer com o Estado, diz que terá que ser enxugado. E não dá mais detalhes. Aparenta assim saber claramente que a decisão estará sempre com ele, e que não precisa entrar em mais detalhes - assim como sabe que seu eleitor não quer no fundo saber. Ele só quer que dê certo, afinal.


Neste artigo sobre aquilo que atrai muitos à candidatura de Jair Bolsonaro, e por que é preciso levar sua candidatura (como ameaça) a sério, comentarei agora o potencial autoritário nisso que ele diz que são suas propostas e mesmo o potencial antidemocrático no jeito como ele conduz a política e como ele pretende conduzir o Brasil, se for eleito. Não irei repisar as costumeiras críticas à sua suposta ou clara homofobia, ou seu posicionamento no mínimo complacente a questões como racismo, povos indígenas, mortes de mulheres, machismo, etc. Esses xingamentos, muitos com bom fundamento, são bem conhecidos.


Entendamos que Bolsonaro diz que não teme a ninguém. Se coloca o tempo todo como se fosse uma espécie de Rambo em busca de um Brasil melhor. Posiciona-se contrário ao Parlamento nisso que ele tem de questionável (apadrinhamentos, fisiologismo, ausência de transparência), e com isso ele como que se coloca um contra todos em nome de um bem maior. Isso não seria problema se ele realmente quisesse cumprir os parâmetros democráticos, se ele realmente aceitasse obedecer os trâmites adequados às leis e ao exercício do poder, se ele entendesse que o que está posto tem alguma legitimidade. Mas não é isso o que ele diz, e o que pretende fazer.


Vejamos alguns pontos. Ele diz que a atuação do STF é uma vergonha. Ok, isso muitos dizem. Ele diz que não pode continuar desse jeito. Ok, muitos também podem concordar. Mas, diante dos atuais 11 ministros, o que ele diz? Que vai colocar mais dez que defendam o Brasil que ele imagina para todos. Ou seja, ele simplesmente não está nem aí para aquilo que já está. É um sujeito que muda a regra do jogo para mudar o resultado. Claro que nós, que vivemos no Brasil, sabemos que os estratos dominantes sempre fizeram isso. Convivemos todos nós com diretores que colocam os filhos para direções estratégicas, que reservam vagas para amigos, que interpretam a lei em seu favor. Ok, mas isso a boca pequena. Bolsonaro quer fazer isso em escala maior. Quer fazer isso nos âmbitos em que há ou deveria haver princípios a seguir. Pois ele não está nem aí para esses princípios. Ele quer mudar as regras do jogo para com isso convencer que mudará o resultado.


Note-se a esse respeito que Lula indicou oito dos atuais ministros. Dilma, por sua vez, indicou cinco. Bolsonaro não quer simplesmente indicar algum ou alguns para o lugar de outros. Ele quer mudar o número de ministros e indicar todos os "faltantes". E ele diz isso claramente. Note-se que isso não reflete necessariamente um ato político em si, mas reflete uma forma de conduzir a política, mudando os parâmetros para ganhar o jogo. E ele sempre diz isso: ganhar o jogo. Porque para ele há quem, dentro no Brasil, não esteja a favor do Brasil, e que ele tem de derrotar. Claro que nisso ele se propõe ter a bússola para saber quem está a favor e contra o Brasil. Como se fosse um ditador.


Note-se por outro lado que ele tem formas de entender o mundo que discrepam, para falar o mínimo, de formas já consensuais. Vou abordar apenas uma. Assim como o Olavo de Carvalho, Bolsonaro não é da opinião de que existam realmente uniões homoafetivas, no que isso significa, ou seja, afeto entre pessoas do mesmo sexo. Para ele, o que existem são sujeitos que querem transar com sujeitos do mesmo sexo, e só isso. Ele sabe que precisa respeitar a decisão, mas ele pára por aí. Para ele, não existem muitos problemas com ofensas a homossexuais, porque para ele a questão é mais estritamente sexual. Mas vejamos que isso também ocorre quanto aos direitos dos indígenas. O que ele pensa a respeito? O que ele vê, e ele vê apenas zoológicos em que essas pessoas vivem trancadas em lugares em que fazem o que querem, sendo sustentadas pelo Estado. Ele não vê, ou não se importa em ver, que aquelas pessoas têm culturas que pretendem manter, culturas que não foram contaminadas pelo ocidente, e que existam motivos para serem preservadas. Ele não liga para isso. Porque ele vê apenas o que aparece. Um monte de sujeitos em áreas enormes com recursos minerais, por exemplo. E ele não está nem aí para os direitos dessas pessoas. Porque ele simplesmente não acha que isso seja relevante. Claro que nisso há uma ignorância muito grande. Mas uma ignorância que tem conexão com a do seu eleitorado, que também não tem posição a respeito. Ele, claro, faz uso do caráter predador de boa parte do seu eleitorado. Gente que prefere se apossar a fazer crescer.


Jair Bolsonaro conquista em última instância pela ignorância. Ele sabe que a maioria das pessoas não tem condições de debater de forma adequada, de discutir em igualdade de condições, e por isso se escuda em artifícios (como o da autoridade, o do ódio ou desprezo, o da suposta superioridade de um ponto de vista) para conseguir convencer o incauto. Porque, no caso dele, tirando aqueles que o apóiam para tirar proveito da situação, o seu eleitorado em geral é o do incauto, que busca uma solução aparentemente fácil para algo que é complexo, mas do que não quer saber. Ou seja, ele quer passar a batata quente para alguém, e busca o sujeito que mais aparenta capacidade de implantar soluções de cima para baixo que o agradem, de forma geral. Se nisso as decisões levarem junto populações inteiras tradicionalmente não atendidas pelo poder, tanto pior. Não importa, no fundo.


Ocorre que o discurso de Bolsonaro não aparece do nada. Não surge simplesmente porque um sujeito se entroniza como salvador da Pátria e todo mundo concorda. Não. Ele surge num contexto bem determinado, em que a população está insatisfeita e percebe que o discurso dos opositores dele não era necessariamente melhor por dizer o que agradava aos ouvidos. Porque era mentira, e porque há motivos para supor que todos enganam. Por outro lado, nesse mundo em que o eleitor se sente enganado ele simplesmente quer escolher alguém que fale sua linguagem, com base na realidade, e lhe forneça motivos para confiar em algo na política que aparentemente contradiz tudo o que dizem os políticos.

Sabemos dos subterfúgios que o PT utilizou para fazer do país essa nação que nós vemos hoje. Sabemos também que o PT se utiliza de discursos para convencer do contrário, quando na verdade não pode fazer nada a não ser desqualificar o outro, sem necessariamente atingir um patamar mais alto de razão. Porque o discurso do PT se desgastou, e porque por mais razão que tenha em episódios que envolvem mortos ilustres essa razão se mostra inócua para oferecer alternativas. Vemos um país que está há mais de vinte anos com governos de centro esquerda ou esquerda, e as condições mais básicas dele não mudaram, no fundo. Podem ter assumido novo perfil os problemas. Mas o eleitor médio não quer saber. Ele quer soluções de cima para baixo. Nada de coisas que ficam agradando grupos de influência que atuam para fortalecer os governos de esquerda.


Nesse contexto, é possível entender mais facilmente por que certos estratos ou pessoas isoladas se metem a pesquisar mais, quando Bolsonaro é atacado pela esquerda ou por pessoas que parecem ter mais critério do que ele. Essas pessoas assumem o papel de advogado do diabo porque sentem que Bolsonaro é alvo de ataques injustos, ou ao menos exagerados. Não à toa pululam mais e mais canais em que certas pessoas, quase sempre desconhecidas, pegam trechos de entrevistas do Bolsonaro, as compartilham juntando trechos de entrevistas de detratores dele, e mostram que Bolsonaro tinha razão. Não que isso fosse necessariamente verdade, mas com isso elas mostram que Bolsonaro é alvo de ataques que ao menos em parte são no mínimo questionáveis. Daí que o discurso mais duro do deputado, desqualificando alguém por ser mulher, ou por ser homossexual, ou por ser de esquerda, acaba saindo fortalecido. Bolsonaro é dos poucos políticos atualmente que possui mais gente que o apoia consistente e criativamente nas mídias sociais do que gente que o ataca realmente sabendo o que faz, sem entrar na jogada de pessoas ditas do bem. É como se o deputado atraísse defensores pelo simples fato de ele falar duro e desagradar quem parece algo que efetivamente não é. Ou seja, chega a ser quase um xodó das pessoas autoritárias que podem usar de sua liberdade de expressão para encontrar brechas nos discursos das pessoas ditas do bem. Claro que os artifícios retóricos utilizados são em grande parte das vezes de qualidade no mínimo duvidosa. Mas convencem o incauto. E é o incauto que interessa. Tanto que os indecisos sobre a eleição de outubro assumem 41% do total.


O candidato Jair Bolsonaro aproveita para si mesmo toda a carga de autoritarismo que faz parte da história da formação brasileira, assim como a desigualdade, reinante em situações de fato e mesmo de direito. Se tem um aspecto positivo em seu jeito de ser, é que ele não mascara que no Brasil há sempre eles e nós, ou seja, aqueles que se aproveitam dos recursos, das oportunidades, da situação, e nós, que pagamos o pato. Ocorre que ele diz se identificar com aqueles que pagam o pato, ou seja, com a sociedade. Ele jamais se colocar do lado daqueles que se aproveitam das situações criadas, dos preconceitos, da cor ou de qualquer outra condição. Porque ele diz que fala em nome da sociedade que sofre, e pela qual ele diz que se preocupa. Claro que para isso ele apenas quer o cargo máximo. Não ousa simplesmente assumir-se na sua condição de deputado bastante omisso e pouco produtivo, para falar o mínimo.


Bolsonaro sabe muito bem que no Brasil de ontem e de hoje quem atua na política é minoria, e que aqueles que se dão bem tratam o assunto como âmbito privado, impedindo que os concorrentes participem e fazendo crer que eles são donos dos mandatos, dos partidos, de toda a política. Por isso, ele atua como uma pessoa que não se mistura. Ele também mostra profunda desconfiança diante do aparelhamento do Estado, dizendo que quer enxugar, que não aceita o loteamento de cargos. Isso agrada, mas muito mais porque é a decisão certa a tomar, tanto para a direita como para a esquerda esclarecida. Pois assim sendo trata o eleitorado como ele é, um simples meio por meio do qual ele atingirá o poder. Não dá excessiva importância a manifestações populares, embora ele as busque, não se incomoda (ao menos aparentemente) com todas as demonstrações de raiva ou de admiração de que é alvo, até porque sabe que tudo isso funciona no fundo a seu favor. Ele se mostra um ferrenho defensor da livre expressão, e comenta que até contribui com humoristas que tiram sarro do seu perfil. Pois assim sendo ele trata a opinião pública como algo importante, sim, mas de que ele não quer ficar sujeito nem muito menos refém. Nota-se isso como ele aborda as pesquisas, e como trata as entrevistas, jamais se mantendo distante como os políticos profissionais. A gente parece sentir que fala com uma pessoa, não com alguém que está querendo algo da gente. Quando a gente sabe que ele é feito da mesma matéria.


Por outro lado, tratando o eleitorado de forma distante, embora com agradecimento a ele, Bolsonaro não aposta nas manifestações políticas organizadas. Não quer se envolver com aparelhamentos de qualquer tipo, ao menos como ele diz, e também não quer entrar no mérito de discussões acadêmicas de nenhum tipo. Ele parece apostar que aqueles que estão envolvidos em discussões de gênero, de sexo ou de cotas são gente formada inadequadamente, com lavagem cerebral esquerdista e coisas do tipo. Ou seja, ele simplesmente descarta entrar no mérito desse tipo de discussão. Com isso, ele também aposta que aqueles que o ouvem no fundo não dão valor a esse tipo de questionamento, até porque sabem que tudo isso no fundo só acaba trazendo mais gastos para o Estado, o que eles não querem. Sente-se assim que por não abrir espaço para discussões acadêmicas Bolsonaro mata já de início qualquer possibilidade de reivindicação, seja lá qual for o ideal a ser defendido. Ou seja, Bolsonaro opõe-se a qualquer choramingo de gente em busca de justiça social. Até porque justiça social parece ser algo que realmente não faz parte do vocabulário do candidato. Sabe-se que o país é injusto. Bom, Bolsonaro até lamenta, mas ele não parece ter nada a ver com isso. Nos próximos textos, falarei das influências ideológicas na candidatura de Bolsonaro.


Bolsonaro tem um irmão maior. Ou acredita ter. Ele, que se diz contrário a ideologizações, tem sua preferência ideológica clara: os Estados Unidos. Para ele, essa preferência parece natural. Nada mais natural do que se apoiar na imagem de livre comércio de uma nação que é amplamente protecionista, como os Estados Unidos. Nada mais natural do que se apoiar na mensagem de uma nação que se diz favorável à liberdade, quando mantém a maior população carcerária do planeta. Nada mais natural que Bolsonaro faça isso especialmente agora, em que os norte-americanos se mostram mais do que nunca favoráveis a se distanciarem de um mundo que percebe suas reais intenções. Bolsonaro se diz antiideológico porque sua ideologia é muito clara e naturalizada. Tornada a opção por excelência para quem quer posar de superior. Para quem se coloca acima da carne seca. Bolsonaro não é o tipo de cara que sai por aí lutando contra imperialismos. A intenção dele é mais se aproveitar dos imperalismos que existem em seu benefício, para quem sabe ficar à sua sombra, como um parceiro de bom tamanho, cuidando do próprio jardim.


Não que Bolsonaro seja necessariamente entreguista, como o atual governo, que simplesmente lambeu as botas dos norte-americanos e sob o olhar atento de Mike Pence cedeu a soberania sobre o próprio território em Alcântara. Bolsonaro quer trabalhar apenas com quem confia, e ele confia no discurso norte-americano como um crente acredita nos textos sagrados, mesmo sabendo que as pessoas não os levam tão a sério, muito ao contrário. Bolsonaro é o típico colonizado cultural que se acostumou a entronizar líderes do lado vencedor achando que com isso eles naturalmente provavam a própria superioridade de mensagem. Por outro lado, ele vê essa suposta superioridade como algo em que pode se apoiar para comprovar a própria, a própria visão de mundo, contrária a tudo o que vem de baixo quando oposto ao ideal do que é supostamente livre. Claro que muitos, acostumados a ver os ídolos chegando como fenômenos naturais e não construídos, concordam intimamente com isso. Onde está o melhor cinema? Onde se consome mais. Onde está a melhor música? Onde ela é melhor vendida. Pouco importam os méritos intrínsecos aos produtos, nesse sentido. Os Estados Unidos são uma nação de vendedores, mais do que de vencedores, e Bolsonaro de certa forma imagina o mesmo para o Brasil. Tanto que o papo de que quer ver o Brasil florescer é sempre sob a égide de deixar o pessoal trabalhar, antes de mais nada. Pouco importa que as pessoas não tenham muito com o que se virar. O jeito é se virar.


Questionado quanto à sua visão da economia, Bolsonaro quase sempre arrega, dizendo que isso será atributo de sua equipe econômica. Questionado quanto às estatais que ele visa vender, também desconversa, apoiando-se no estigma do que é estratégico para colocar entraves a uma visão meramente liberal. Diz que é preciso enxugar, e diz que não faz acordos de apaziguamento, mas ao mesmo tempo não sabe muito bem o que propor para além de estabelecer uma ordem, uma cadeia hierárquica, utilizar gente autoritária para fazer o que ele quer, dizer que é preciso cortar aqui e acolá e deixar o pessoal trabalhar. Por sua vez, no que diz respeito à população, quer simplesmente cortar o que puder para deixar o pessoal trabalhar. No máximo, propõe extrativismos localizados para fazer o Brasil demonstrar o seu poder com base em seus recursos naturais. A insistência no nióbio como recurso extrativo de alto valor chega a ser engraçada quando ele utiliza exemplos retirados do comércio de bugigangas. Não se ouve Bolsonaro falar em parque industrial porque esses assuntos mais complexos para ele são desinteressantes, e não valem a pena serem discutidos em público. Pensar em taxar grandes fortunas? Nem pensar. Pensar em reduzir a carga tributária para o cidadão comum? Até pode ser. Mas que seja com o intuito de cobrar ainda mais trabalho do cidadão comum. Não para fazê-lo necessariamente ganhar mais com isso, em termos de vantagens financeiras. O negócio não é dar nada ao cidadão comum. O negócio é não atrapalhar o próprio andamento de sua vida. Isso para ele basta. O sujeito se vira. Afinal de contas, as pessoas já não se viram sozinhas?


A questão é que no discurso de Bolsonaro existe uma margem (bastante grande) para o improviso, para o imponderável, para o inusitado. Disso ele se aproveita pelo pouco traquejo com alguns assuntos, especialmente a economia. Mas isso também lhe dá margem de manobra para falar o que bem entende, mesmo que diga respeito a assuntos que deveriam requerer um conhecimento técnico respeitável. Esse vácuo que vemos no seu discurso é o que dá margem a ele em determinadas ocasiões falar coisas que chocam, que irritam, mas que sempre chamam a atenção. Por outro lado, quando o seu discurso choca é em função de ele, a todo momento, deixar claro que se opõe à forma costumeira de encarar determinadas questões, especialmente quando dizem respeito a autoridade. Nesse sentido, ele sabe bastante bem o que está fazendo. Por outro lado, qiuando ele fala de assuntos mais técnicos, suas declarações também chocam por vezes, mas aqui por tratar assuntos complexos de forma aparentemente simples, e que qualquer um consegue entender. Por exemplo, quando ele se dispõe a falar sobre privatizações. Assunto espinhoso, esse. Mas ele sempre escapa pela tangente quando comenta sobre a questão estratégica ou a função, nas contas públicas, daquilo que é estatal. É como se ele tivesse sempre uma forma diferenciada e facilitada de abordar assuntos sobre os quais os outros candidatos contemporizam. Como ele o tempo todo faz questão de dizer que é preciso diminuir o tamanho do Estado, para todos os que o ouvem a mensagem sempre parece clara e bastante simples. E poucos ousam se opor. Quando o fazem, são imediatamente categorizados no grupo daqueles que querem aparelhar o Estado em nome de seus interesses, mesmo que isso não seja propriamente verdade. Por outro lado, sempre que se dispõe a opinar sobre assuntos que envolvem muitos interesses, como por exemplo no que diz respeito à economia, Jair Bolsonaro não opina necessariamente no sentido de romper com quaisquer regras. Ele simplesmente se escuda sob o manto da ideia de que é preciso fazer algo em benefício do todo. Uma retórica populista bastante conhecida. Claro que isso dá margem a que as posturas definidas a respeito desse tipo de assunto sejam definidas a portas fechadas, e resta de forma geral um espaço para esperança - para os mais ingênuos - ou incredulidade - para os mais desconfiados.


É também bastante curioso como, em seu discurso, Jair Bolsonaro dificilmente se remete a trabalhos alheios, atribuindo a outros a autoridade daquilo que ele mesmo diz. Pois, embora por vezes cite dados, a autoridade quanto àquilo que se pode fazer em função da sua análise é prontamente atribuída a ele mesmo. Pois é como se ele com isso restaurasse um ponto de vista de autoridade que teria sido perdido, dado que os outros parecem com seus discursos se aterem a arcabouços teóricos que não parecem ter mensagem clara por detrás deles mesmos. Nesse sentido, não cabe muito perguntar a Bolsonaro se ele é estatizante, privatizante, se ele é keynesiano, nem nada do tipo. Ele simplesmente foge desse tipo de bagunça conceitual dizendo que sua equipe econômica definirá o que fazer a respeito de temas específicos, e que ele com base nisso decidirá o que fazer. Ou seja, ele não explica realmente nada, mas aparentemente ninguém se importa. Já no que diz respeito a assuntos que envolvam autoridade, ele sempre apela para o fato de que utilizará gente do âmbito militar, e que essas pessoas definirão o que deve ser feito, mesmo em âmbitos sobre os quais não entendem aparentemente nada, como educação. Isso porque o tempo todo a definição do que é adequado ou não está sob a autoridade dele, mesmo que todo mundo (de alguma área específica) possa dizer o contrário. No caso educacional, sabe-se como Bolsonaro tem ojeriza a qualquer discussão que diga respeito a questões de gênero, por eemplo. Nesse sentido, sabe-se que ele não está disposto a sequer discutir essas questões, seja no âmbito mais amplo ou mais restrito, e que assim a educação seguirá outros moldes, mais conservadores, ditados pelo seu aparente bom senso, que cai em geral nas graças das pessoas em geral ou do seu eleitorado de forma mais específica. O mesmo acontece no que diz respeito a políticas para minorias, ou que digam respeito a situações de violência que atinjam populações específicas. Ele simplesmente não se importa com certas discussões, e seu ponto de vista é genérico, sem abordar questões de nenhum tipo da esquerda, seja esta de índole autoritária ou supostamente esclarecida.


Não é preciso, após a leitura de todo este artigo, resumir claramente as ameaças que a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da República impõem à democracia como meio pelo qual qualquer um pode fazer uso para governar o Brasil. De forma geral, todas elas se resumem ao fato de que Bolsonaro se qualifica como condenado a isso. E nesse sentido ele faz crer que tem, em última instância, a forma ideal para conduzir os destinos da nação. Pouco importa que suas diatribes, momentâneas ou não, façam-no cair num determinado grupo de pessoas, de índole mais autoritária do que a média. Ele acha isso irrelevante e, mais importante, faz crer que é assim, de sua forma, que efetivamente as coisas têm de ser, e para isso a sua postura é clara, inegociável, induscutível, e pronto. Nesse sentido, tudo o que possa requerer um ponto de vista de barganha ou negociação com base em resultados para ele é simplesmente desimportante. Ele não está a fim de negociar. A solução estaria na sua forma específica de ver o mundo, e ela deve ser imposta de cima para baixo, doa a quem doer. Alguém vai sofrer com isso? Paciência, ele não se preocupa especificamente com ninguém. Ele assume que seu ponto de vista é mais altaneiro, e que quem não quiser seguir sua cartilha se mude. Simples assim.


Claro que não por isso Bolsonaro quer necessariamente implantar um regime ditatorial. Ele sabe que gerenciar um país consiste, em grande parte, saber gerir as relações entre os poderes. Mas, como já abordamos, ele não faz questão nenhuma, por outro lado, de respeitar a atual condução dos trabalhos, por qualquer um dos poderes, de forma específica ou genérica. Ele se dispõe a fazer tudo se conduzir do seu jeito, e para isso se dispõe a fazer uso de qualquer estratagema para fazer todo o país se conduzir do seu jeito. Já comentamos como isso se dá com respeito ao STF, e imaginamos que no que diz respeito à Câmara ele não deixe de cogitar atitudes duras como fechamento ou qualquer coisa desse mesmo tipo. Porque ele não quer, e deixa isso sempre bem claro, se sentir refém de nada nem de ninguém. Por isso, a ameaça por excelência ainda permanece. Ele pode eventualmente negar, mas basta reparar em seu discurso para entender como para ele o fato de ameaçarem-no de ser refém de algo alheio a ele mesmo é algo supremamente importante e passível de ser encarado com atitudes de força bruta. Não exageram os críticos quando assumem Bolsonaro dessa forma. Retaliação é nesse sentido a forma mais clara com que Bolsonaro pode encarar qualquer oposição. Ele deixa isso claro também no próprio comportamento pessoal, quando não hesita em chamar de passível (ou não) de ser estuprada qualquer uma que questione sua forma de ver o mundo. Bateu, levou. Resta saber se, no caso do Brasil, quem levar será o todo, parte, ou a democracia de forma geral.

 
 
 

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