Os escândalos dos influencers e uma analogia com os booktubers
- Rodrigo Contrera
- 28 de ago. de 2018
- 3 min de leitura

Booktubers são profissionais de mídias sociais que cobram para falar bem de livros que não leram, utilizando seu poder de penetração nas mídias sociais e sua suposta credibilidade. São influencers, ou seja, sujeitos que fazem uso de seus poderes de persuasão para benefício próprio e de seus clientes. Ficam a um passo da publicidade, mas fingem que fazem conteúdos nos quais as pessoas deveriam acreditar.
Mas este blog é sobre política. E na política vêm surgindo cada vez mais escândalos envolvendo influencers que são pagos para fazer o mesmo, de certa forma. Fazer propaganda política sob o manto de um suposto conteúdo isento. Esses escândalos têm pululado por aí e muitos partidos e supostos influencers de peso estão envolvidos, sendo pagos por caixa dois. Alguns jogaram a merda no ventilador.
Bom, eu sou jornalista, social media e influencer. Trabalho com todos esses ramos, de várias formas, e conheço bem os dilemas de um e outro caso. Uma coisa é ter credibilidade como jornalista, outra coisa é usar de seu conhecimento para as mídias sociais, outra coisa ainda é comentar, como influenciador, sobre mercados que a gente conhece bem (um deles é o editorial, sendo tradutor experiente e editor). Mas tenho visto profissionais mais jovens que parecem confundir um pouco as bolas.
Fazendo uma analogia do caso da política como o dos booktubers, o que podemos pensar a respeito? Bom, a questão aqui é que os partidos estariam usando caixa dois para pagar gente que vive de influenciar as pessoas. O problema aparentemente não estaria na função dos influencers. Ou seja, eles simplesmente estariam oferecendo seus serviços para divulgar candidatos. O problema estaria com os partidos.
Mas quando pensamos nos booktubers, isso fica um pouco mais complicado. Isso porque os booktubers estariam usando de seu poder de persuasão para convencer possíveis leitores da qualidade de livros que não leram e que só são divulgados porque seus autores e editoras pagam para isso. Isso parece má-fé. Pois bem, é má-fé ou não? É algo eticamente errado?
Sou bastante experiente com jornais, revistas e livros. Sei muito bem o peso da credibilidade nesse mercado. Sei disso porque sou um sujeito formado por meio de livros, cujo valor prezo acima de muita coisa. Nesse sentido, leva muito tempo e trabalho para que um autor ou divulgador mereça minha confiança. É um trabalho árduo e penoso. Como poderia eu deixar que um influenciador avaliasse um livro por mim, se eu dou tanto valor à lide?
Porém, a geração digital não parece, muitas vezes, dar o devido valor a isso que eu estou comentando. Para ela, credibilidade é algo que se pode vender. Para muitos de seus defensores, num mercado que tem tudo para crescer divulgar fingindo credibilidade e sendo pago para isso é apenas uma oportunidade de negócio. Claro que eles pensam assim: afinal, nunca foram nem serão jornalistas.
A analogia dos booktubers com os influencers da política termina aqui na medida em que, se você está disposto a cobrar para vender a alma, realmente algo deve andar mal no mercado. Diferente seria se você vendesse serviços de assessoria de imprensa. Diferente seria se você oferecesse serviços de social media. Mas na medida em que você joga o conteúdo em jogo, você simplesmente não entendeu que há um ponto em que você precisa parar.
Como jornalista, já me ofereceram dinheiro por matéria (eu denunciei o sujeito à minha chefia). Já fui ameaçado por político pessoalmente (minha chefia vendo). Já fui perseguido por fontes, e já tentaram me dissuadir a falar bem de gente que eu não prezava. Tudo isso, enquanto jornalista. Minha credibilidade em parte vem daí.
No caso da política, o mal a meu ver está para além do uso de caixa dois. Está na defesa de bandeiras por gente que, supostamente, deveria fazer bom uso de sua credibilidade. Não faz porque simplesmente sua credibilidade não existe. Não existe porque para muitos ela simplesmente não importa. Pois é. É o mundo em que vivemos.




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