O falecimento de Otávio Frias Filho e o recrudescimento da indigência moral
- Rodrigo Contrera
- 24 de ago. de 2018
- 3 min de leitura

Pessoas que possuem méritos sempre dividem. Não há toa o próprio Cristo dizia isso, que ele teria vindo dividir. Longe de mim, é claro, comparar o ex-boss da FSP com Cristo. Mas para mim o surgimento de comentários nada elogiosos a ele após sua morte tem algo a ver com isso. Tem gente que só quer ver o outro se ferrar mesmo.
Mas é curioso, porque se o OFF deixou uma marca creio que ela tenha se dado em outro lugar. Não bem na FSP, no trabalho explícito que o jornal fez por algumas bandeiras, nem em sua suposta imparcialidade, nada disso. Para mim, o legado que ele deve ter deixado parece mais sutil. Algo que remete a leituras mais antigas sobre jornalismo e mídia de forma geral. Algo mais afeito a questões de costume.
Por que a FSP não seria um jornal imparcial, afinal? Primeiro, porque isso é impossível. Segundo, porque, como muitos críticos mais atentos mostram, ele sempre fez questão de mostrar sua bandeira política interessada em aspectos mais sutis, que não na matéria em si. No posicionamento da matéria na página, na ausência ou presença de epítetos nos títulos, no ato de esconder matérias mais politicamente complicadas (contra amigos), etc. Na edição, em suma.
Eu mesmo nunca dei relevância àquele tipo de crítica, contudo, porque considero que, se você quer se informar, você primeiro lê TUDO, e segundo, você não acredita em nada a não ser em seu bom senso. Pois de nada adianta dar pérolas aos porcos, em suma. Não adianta eu te dar uma matéria ponderada, e tudo, se você não souber ler e não quiser pensar. Nesse sentido, a Folha apenas escondeu certas artimanhas pelas quais ela ampliava o seu espaço no mercado - porque, afinal de contas, é ele que interessa, não é mesmo?
Ocorre que, com esse hábito de ser mais sutil ou disfarçado, o jornal passou a instituir uma forma de leitura do mundo que se tornou também mais hipócrita. Sabe aquele colega que nunca fala nada contra você, diretamente, mas que arquiteta artimanhas diversas para fazer você cair? Pois é, a Folha passou a instituir uma forma de ler o mundo que tem tudo a ver com um jeito mais hipócrita de ver o mundo. Não é à toa que são poucos realmente os jornalistas que passaram por lá que se destacam pelo alto senso moral. Claro que isso também não é necessariamente um problema. Poucos são os jornalistas que realmente possuem isso, e que levam consigo até a morte.
Já eu, que sou mais direto, que falo na chincha, e que não tenho medo do que pensem de mim, considero esse tipo de comportamento humano bastante questionável e censurável. Não à toa meus dilemas sempre são mais na cara, que meus modelos são gente mais sutil de outras formas (mas direta quando fala críticas), que meu entendimento do mundo é mais soturno e mesmo cínico. Para mim, não adianta você passar perfume para tentar esconder a sujeira interna. Não adianta você aparecer nos perfis com paletó e gravata. Não adianta você fingir sapiência quando no fundo é apenas um ignorante bem relacionado. Simplesmente não adianta.
Sim, a Folha teve seu papel interessante durante a redemocratização. Sim, ela serve como uma boa forma de informação, e também como um elenco de bons jornalistas, de tudo quanto é tipo. É também um celeiro de aprendizado, e o perfil do OFF se encaixa fortemente no tipo de jornalismo que esse pessoal acaba defendendo por toda a vida. Mas ela também tornou-se um celeiro de gente mais dúbia, que não tem escrúpulos de defender bandeiras suspeitas por algum motivo menos nobre, de gente que defende clientes sem moral para permanecer no mercado, de gente que vê seus nomes no noticiário e mantém um ar de empáfia no rosto.
Quem sou eu para julgar ninguém, contudo. O OFF fez sua parte, e fez bem, em defender uma modernização para um meio que é dominado por ignorância e superficialidade. Trabalhei na Folha pouco tempo, mas pude conferir que havia algo legal ali, na fase em que ela se tornou o que é. Mas hoje, num outro momento, como que não traz tantas boas lembranças o cheiro de gráfica, até porque sabemos que lemos nas telas, e que o Uol é em grande parte comandado por scripts e robozinhos. E porque a jogada hoje é bem outra, mais baixa até.




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