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Nazismos, pós-verdade e a legitimidade de recusar um mundo que não se quer

  • Foto do escritor: Rodrigo Contrera
    Rodrigo Contrera
  • 9 de jul. de 2018
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de jul. de 2018

Porque os valores se contradizem

A França e a Croácia estarão este sábado decidindo o título de campeão da Copa do Mundo mas desde já diversas questões vêm à tona com respeito a manifestações de índole nazista proporcionadas por membros do time da Croácia. Muitos inclusive estão torcendo pela França em virtude especificamente disso. Não entrarei no mérito dessa discussão, aqui. Pretendo olhar um pouco mais alto.


Deixo claro que me posiciono contrário a qualquer manifestação de índole nazista proporcionada por quem quer que seja em qualquer lugar do mundo. Conheço bastante bem a história do partido e a evolução do regime naqueles idos do começo do século XX, li vários autores a respeito, acompanhei com bastante atenção relatos sobre o julgamento de Nuremberg e tenho especial predileção pelas leituras de e sobre os campos de concentração. Considero que esse tipo de manifestação é criminosa, e portanto não há o que discutir a respeito.


Porém, considero também necessário tentarmos entender o que significam essas expressões, neste momento histórico, sua conexão com a chamada pós-verdade e a legitimidade delas, na medida em que o mundo avança rapidamente em direções que boa parte das populações simplesmente recusam. Vivemos numa sociedade altamente politizada, especialmente com a disseminação das redes sociais, e portanto é preciso entender com quem estamos lidando, quando enfrentamos questões desse tipo.


Vamos à questão em si. Os jogadores da Croácia utilizam a possibilidade de se expressarem publicamente para divulgarem mensagens nazistas. Nisso estão errados. Mas, o que eles querem dizer quando fazem isso? Querem prestar tributo ou homenagem a valores que entronizam como superiores e lealdade a representantes que simbolizam esses valores. Nesse sentido, eles se referem a passados que não consideram totalmente superados. Ou seja, a situações que para eles não estão resolvidas. Isso acontece especialmente quando entram em embate com forças que se opõem a seus valores e a seus representantes.


De certa forma, acontece o mesmo quando representantes de direita dizem desconsiderar saberes científicos determinados e insistem em questioná-los, forçando que filhos de seus representados sejam ensinados de forma não-laica, por exemplo, ou negando o reconhecimento ideológico a estilos de vida alternativos. Isso entra em questão quando discutimos a questão, por exemplo, da pós-verdade, em que relatos aparentemente incongruentes se somam a relatos assumidos como consensuais (presentes na opinião pública) e disputam espaço com eles, assumindo seu caráter suposto de verdade.


É como se houvesse gente que não quisesse saber da ciência. Como se houvesse gente que não quisesse saber das conquistas civis por grupos minoritários (ou majoritários historicamente prejudicados). Como se as pessoas quisessem legislar em nome próprio, defendendo seus valores independente de seu reconhecimento pelas esferas públicas mais amplas. Não é à toa que a maior parte desses defensores são de direita. São representantes de estratos que se sentiriam ameaçados pela evolução ou mudança da sociedade e que não querem ser atingidos por avanços em ciência e costume. Isso pode ser representado, de forma extremada, por posições contrárias à imigração, como que insistindo em reservar seus países a uma branquitude ou a uma suposta pureza originais.


Essa espécie de volta às origens está também presente em discursos como o da Escola Sem Partido, que busca uma suposta desideologização do ensino, na medida em que seus representantes consideram que os professores (ou parcela deles) utilizam seus cargos como forma de incutir ideias pré-concebidas no alunado, especialmente ideias de esquerda.


Nesse sentido, a Escola Sem Partido busca supostamente garantir que o professorado não esteja incutindo valores questionadores do status quo, dessa forma desrespeitando os valores predominantes nas famílias dos alunos.


Dou uma pausa no relato aqui para falar algo sobre meu caso pessoal. Fiz Jornalismo e Filosofia, ambos na USP. Não tenho, de forma geral, muito a questionar do ensino que tive nessas faculdades. Mas preciso admitir que, embora ele tenha sido plural, ele também (especialmente na Filosofia) tendia a ser de esquerda e a entronizar como valores inquestionáveis representantes do marxismo que até hoje permanecem na minha mente como fantasmas. Isso significa que, se eu não tivesse valores bastante definidos a respeito de política, muito provavelmente estaria sujeito a influências excessivas da esquerda que poderiam até ser nocivas para meu desenvolvimento pessoal. Digo nocivas porque a esquerda não representa necessariamente o lado do bem nessa discussão.


A questão que se instala é se a direita pode legitimamente se entronizar como defensora de valores que contradizem o andar da carruagem. Teoricamente, ela pode. Da mesma forma, jovens sem referências morais podem se dizer influenciados por conquistadores de épocas passadas, ou por civilizações de índole não-democrática, por exemplo. Nesse sentido, é até legítimo que representantes atuais se digam influenciados por líderes passados que deixaram máculas na história, mesmo que essas máculas tenham sido condenadas para todo o sempre. Isso ocorre por exemplo no caso do candidato Bolsonaro, que se refere ao coronel Ustra de forma propositiva, desconsiderando ou minimizando o seu envolvimento em casos de tortura. Pouco importa que ele seja condenado ou não por suas declarações, em última instância, quando elas contradizem a lei. Importa que ele defende publicamente o endosso a posições de gente que estaria condenada ao ostracismo para todo o sempre.


Sempre vão existir loucos a defenderem posições anacrônicas, incômodas, historicamente falhas e moralmente questionáveis. Da mesma forma, sempre vão existir pessoas dispostas a seguir maníacos com mensagens oníricas (retiradas de sonhos) mas que se dizem inspirados por forças superiores. O caráter do carisma descansa nisso. A ausência de perspectivas também favorece esse tipo de coisa. Porém, é preciso também entender que, do jeito que vai, a política normativa parece corresponder a uma espécie de camisa de força que obriga estratos pensantes a obedecer a ditames não reconhecidos como tal. Como o âmbito maior de discussão é sempre político, então esses estratos chegam num determinado momento a não querer mais obedecer - pela força da vontade, ou do voto. Nisso, eles fazem um jogo legítimo. A questão se torna relevante, contudo, quando atinge a grande maioria da sociedade. Pois é esta que irá no fundo decidir como tudo será feito. Nesse âmbito maior, como sabemos, o embate é acirrado, e pretende continuar a sê-lo cada vez mais.

 
 
 

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