Enquanto alguns querem o controle, a maioria se vira como não pode
- Rodrigo Contrera
- 19 de ago. de 2018
- 2 min de leitura

O noticiário nos faz crer que estamos numa situação complicada em termos políticos. Que o país parece sem comando, e que é preciso se focar na escolha dos novos dirigentes. Mas basta cair nas redes sociais para perceber que, enquanto lá em RR, brasileiros indignados por atos isolados expulsam venezolanos, nos municípios de todo o Brasil ocorrem atos que causam revoltas mais localizadas, derivadas de falta de condições de saúde, educação e segurança.
É comum que sejam replicados posts gravados com celulares contrários a atitudes de funcionários públicos, funcionários privados ou expressando indignação com o dia a dia de repartições públicas, como escolas. Hoje vi médico de Guarulhos discutindo com mãe e mandando-a tomar no cu, cena em que um aluno de escola carrega uma faca, sujeito reclamando de obra enorme em São José dos Campos não concluída e às moscas, assim como de gastos com viaturas que permanecem paradas, e assim por diante.
Diante de tudo isso, as manipulações retóricas dos candidatos a presidente parecem retiradas de um mundo de ficção, ainda mais quando recheadas de menções a Deus, enlevadas por suposta indignação, animadas por ironia, ou enriquecidas por coragem, suposta ou fingida. Podem dizer vocês que me preocupo por algo pontual e irrelevante, por situações pontuais que não têm, em última instância, solução. Ocorre que a vida que conta muitas vezes é ditada, sim, pela possível solução (ou não) de situações pontuais, e não por racionalidades mais amplas e abrangentes. De que adianta termos um país melhor se não conseguimos ser bem atendidos em nossas (sempre pequenas) demandas?
Quase 200 mil benefícios do INSS estão sendo revistos, e mesmo negados, por exemplo. Esses benefícios podem incluir irregularidades, claro. Mas também podem englobar gente com problemas reais e que deveria ter seus direitos respeitados. Mas o governo fecha cada vez mais a porteira, e com isso famílias se dissolvem, pessoas entram em desespero e morrem sem ninguém reparar. No meu município, sempre vejo homens e mulheres sem rumo, muitas vezes com problemas psiquiátricos sérios, carregando trouxas e emagrecendo a olhos vistos, enquanto as pessoas tocam suas vidas e já nem se perguntam quem essas pessoas são, aquilo de que precisam, nem imaginam quem poderia ajudá-los. Cheguei até a falar com um padre a respeito, e ele deu de ombros (para minha surpresa e decepção).
Claro que nesse contexto as soluções, quando surgem, devem advir de âmbitos mais elevados. Mas nestes níveis o desprezo pelo pequeno é patente. Todos parecem querer degraus cada vez mais elevados, sempre, e enquanto isso o que é pequeno se torna irrelevante. Só crianças e velhos costumam reparar nesses pequenos eventos. Uns porque começam a viver e outros porque já começam a se despedir. Enquanto isso, vemos estrangeiros curtindo viagens em meio a riscos absurdos, e outros engordando sem parar, exibindo uma opulência que parece tão vazia. Já outros exibem voluntarismo, que não serve claro a ninguém, a não ser a seus egos - sempre bastante desprezíveis.
É como se ficássemos vendo o mundo sob a lente de uma câmera controlada remotamente que nos expressa que tudo, no fundo, continuará sempre do mesmo jeito - porque o ser humano é mesmo assim.




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