A revelação de Augusto Nunes e o fim do jornalismo
- Rodrigo Contrera
- 1 de ago. de 2018
- 2 min de leitura

Sou jornalista há mais de 20 anos, mas não na chamada grande imprensa. Independente disso, trabalhei muito tempo sob pressão, de todos os lados - da direção, dos anunciantes, dos amigos, e da consciência. Não é fácil viver nesse meio, mesmo em pequenos jornais, como aqueles em que fiz alguma história.
Por isso, sei bem o que é sofrer a pressão que o Augusto Nunes revela na TV Cultura, como diretor do Roda Viva. Sei e me congratulo com o fato de ele ter falado para outros a respeito. Claro que nem por isso compartilho de seus valores recentes ou antigos, mas isso é de menor importância.
O fato é que em lugares em que a exposição tem um valor (em dinheiro, influência ou votos) a pressão sempre existiu, existe e sempre irá existir. Há aqueles que se submetem. Outros que não, que possuem outra forma de encarar o assunto. Ocorre que a TV Cultura é pública, e por isso as pressões assumem um caráter ainda mais dantesco. Usa-se o espaço público para privilegiar pessoas, candidatos, interesses privados.
No meu caso, na minha carreira, convivi com algumas situações estranhas. Um editor que vendia espaço na revista para colocar uma determinada marca de trator (foi demitido). Matérias que eram feitas, mas não saíam publicadas, porque envolviam parentes de famílias importantes nas cidades da periferia cobertas pelo jornal. Empresas que insistiam em cavar matérias em que elas somente podiam falar (não conseguiam). Diretores que forçavam os editores a publicar elogios sobre empresas anunciantes. Teve de tudo. Eu sempre resisti.
Infelizmente, todas essas pressões mostram que o jornalismo não é mais importante. Que a escolha por jornalistas de renome para quando o assunto é dinheiro. Que os critérios tornam-se cada vez mais fluidos, e no fundo desimportantes. Porque, afinal de contas, todo mundo parece assumir um preço, uma etiqueta, um valor. Mesmo quando o jornalista se assume como tendo um lado, ele sempre tem um valor (mesmo que não o receba em dinheiro). Isso, claro, é o fim do jornalismo. Mas não sejamos românticos: sempre foi assim.
;)




Comentários