A política, feita para quem se sujeita a morrer por ela
- Rodrigo Contrera
- 6 de set. de 2018
- 3 min de leitura

foto: Raysa Leite
Eu não estava em casa quando ficamos sabendo da facada que Bolsonaro recebeu em Juiz de Fora. Soube perto da padaria Rainha, enquanto esperava o ônibus. Não sei o que pensei na hora. Mas não comemorei. Não gosto do Bolsonaro, mas também não o detesto.
Lembrei-me de quando a política me atingiu pela primeira vez, quando tinha seis anos, e ocorreu o golpe no Chile. Allende foi morto na ocasião. Ele deve ter se matado.
Passaram-se muitos anos, e quando eu era repórter de rua em Guarulhos percebi claramente que política, naqueles ambientes pelo menos, era algo feito para quem se dispunha a levar um tiro na cara. Guarulhos é cidade metropolitana, e tem clima de periferia. Eu moro atualmente em outra cidade do tipo, bem menor, mas o clima no fundo é o mesmo.
Isso porque percebi claramente que a liberdade da opinião política era algo no fundo restrito a poucos. Isso porque entendi que somente alguns aqui eram passíveis de ter realmente opinião expressa, pública. Isso se tornou ainda mais claro quando virei síndico, e quando percebi que somente alguns tinham direito à fala.
Mas antes de ouvir sobre o atentado a Bolsonaro eu estava na padaria. Uma das mais conhecidas da cidade. Uma padaria de classe média baixa, nada chamativa. Lá as pessoas pareciam afastadas do que acontecia. Não parecia estar acontecendo nada de relevante. Não sei se aconteceu enquanto eu estava lá.
Eu permanecia com minha Bíblia na mão, lendo alguns trechos e me emocionando, sem ninguém perceber (ou quase ninguém). Eu preferi ir até lá naquele horário porque estava cansado. Havia acordado às 4h40, e não parara um só segundo. Os trechos da Bíblia não falavam sobre política. Mas me contextualizavam em relação aos meus colegas, à minha família, a mim mesmo e a Deus. Nesse âmbito, a política parecia pequena.
Quando saíra, em direção à padaria, um vizinho meu, o de cima, estava se mudando. Eu nunca conversei com ele, em todo o tempo que convivemos, mas já notara algo do tipo quando um de seus filhos me tratou no ônibus com distância. Olhei para o sujeito, que levava móveis para o caminhão de mudança, e não fiz nada com meu olhar. Hoje mesmo, também vi um senhor que está passando por dificuldades, conversando com uma moça da limpeza. Por que comento isso? Porque para mim política é mais isso do que qualquer coisa. O trato corriqueiro. Não os grandes movimentos. Política é pequena. Ao menos para mim.
Agora leio comentários sobre o atentado, e fico feliz com que todos os concorrentes lamentaram. Chego quase a chorar com isso, porque para mim política é importante, seja como for. Não aceito quem trata o assunto com ódio. E não considero que o próprio Bolsonaro faça isso. Não considero e por isso não o detesto. Ele tem um jeito diferente, agressivo, mas só. Não caio na jogada da esquerda, que tenta demonizá-lo. Acho-o despreparado e uma ameaça à democracia. Mas a democracia tem dessas coisas.
Já falei então naquilo que - eu acredito - seja a política. E por outro lado naquilo que ela é. Ela sempre apareceu para mim sob o signo da violência e da morte. Mas para mim ela se dá no trato social, pequeno, naquilo que costumamos denominar civilidade. Mas claro, isso é apenas um ideal. Não é o que a política é. A política é arma. É faca. É tiro. Infelizmente, mas ela é isso aí.
Quero dizer que o atentado não foi um ato de loucura de um condenado, mas um ato político, um atentado? Sim, isso mesmo.




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