A cooptação voluntária do jornalismo "do bem"
- Rodrigo Contrera
- 17 de jul. de 2018
- 5 min de leitura

O Brasil é uma nação na qual os valores democráticos são em grande medida raros. Quem os possui normalmente é entronizado como grande exemplo, quando no fundo ele deveria apenas ser considerado um cidadão cônscio de seus direitos e deveres, assim como um sujeito que sabe se comportar.
Mas, como vivemos num país em que um candidato à presidência opta naturalmente (para ele) por assumir o lado de quem foi condenado por torturas e assassinatos (isso sem contar outras diatribes), então entendemos que menos mal que certas pessoas falam e fazem aquilo que é considerado certo. Claro, não poderia ser diferente após tantos anos de arbítrio (nem falarei em ditadura, governo militar, para não criar mais confusão).
Ocorre que por causa disso as bases morais daqueles sujeitos que deveriam ser antes de mais nada isentos - os jornalistas - são em geral bastante fracas. Normalmente, bons jornalistas vêm de famílias bem formadas, ora por questões educacionais, de exemplos ou mesmo de prática política. São sujeitos que desde criança estão acostumados ao ambiente público, à altercação de opiniões, a ganharem ou perderem. No fundo, o que importa é o jogo continuar sendo jogado.
Ocorre que a maioria dos jornalistas por aí não podem ser chamados bons jornalistas. Por várias razões: a formação deficiente, a falta de cultura, a preguiça, etc. Independente disso, os valores desses jornalistas muitas vezes também deixam a desejar. Basta considerar a imagem que a profissão tem perante a opinião pública. Ora acha-se que ser jornalista é ser um sujeito disposto a qualquer sensacionalismo pela notícia, ora se acha que ele tem seu silêncio comprado por seu empregador ou pelos patrocinadores.
Com a disseminação das redes sociais, tudo isso ficou ainda mais dramático. Tanto que uma das "indústrias" mais bem sucedidas nos últimos anos tem sido a dos fake news. Como qualquer um pode montar um blog ou um canal no youtube, e falar em última instância quase o que quiser, o jornalismo ficou na defensiva, e poucos são os canais em que vemos notícias de alta credibilidade. Pois bem, é nestes sites que eu gostaria de me focar.
Com a disseminação da chamada pós-verdade, o jornalismo ficou bastante chatinho, para sermos bem sinceros. Parece-se a um apanhado de sujeitos que preferem levantar bandeiras de uma certa esquerda, sujeitos a influências externas as mais diversas (algumas delas nocivas), e cegamente contrário a um certo conservadorismo, que aprendeu a florescer com a chamada pós-verdade. Daí a esse jornalismo acabar sendo cooptado por gente supostamente "do bem" foi um passo. Daí que todo jornalismo supostamente progressista é a favor do meio ambiente, feminista, favorável ao aborto, anticlerical ou antireligioso, antimilitarista, etc. Ou seja, como se todo mundo tivesse sido forçado a recair numa agenda politicamente correta, porque se não, é considerado do mal.
Não que não exista o do mal. Existe. É louvável se opor a uma indústria que comercializa capas de gordura animal sob a forma de balas de goma. Ou uma outra indústria que trafica animais, tratando-os como coisas, para de forma animalesca (o trocadilho foi involuntário) satisfazer uma penca de gente que não se importa com o sofrimento disseminado pelo mundo. Existe o mal, e ele tem cara. Mas atualmente é como se todo mundo, mesmo os que deveriam ser isentos, quisesse bancar o lado do bem, para conseguir mais cliques e talvez mudar a sociedade. Bom, isso não é propriamente jornalismo. É mais algo similar a marketing supostamente do bem. Por sua vez, é patético como jornalistas que deveriam ter um comportamento mais contemporizador pegam em armas quando algo de mal acontece para minorias ou gente historicamente prejudicada. É como se estivéssemos diante de um circo, em que o que mais vale é aparecer. Noto também que muito dessa vontade de consertar o mundo é canhestra, totalmente imbricada em contradições, que até mesmo causam espanto. Seria engraçado se não fosse patético.
Dá para perceber claramente onde reside o mal dessa prática. Pois, quando a gente se decide contra as indústrias de plástico (por exemplo), não podemos mais noticiar como algo positivo a diminuição do alcance das sacolas ao mar, por exemplo. Ou, quando nos decidimos atacar quem vive de comerciar e matar animais, não podemos mais abordar assuntos como diferenças de ordem antropológica em hábitos alimentares. Porque tão logo nos assumimos como defensores de seres indefesos, nem conseguimos mais falar algo contra epidemias de baratas, ou mesmo de ratos. Porque estamos afinal do lado do bem. Não podemos também falar em progressos em políticas para as mulheres, mas apenas podemos gritar por igualdade a todo custo. Ou seja, viramos assessores de imprensa de causas - e pior, nem ganhamos para isso. Por outro lado, como questionar atitudes veganas se nos opomos aos açougueiros, de forma geral? Até admitimos apoiar demonstrações de força totalmente incabíveis, e isso porque estamos do lado das forças do bem. Será mesmo? Há uma burrice intrínseca nisso tudo: a impossibilidade tácita de pensarmos, de refletirmos livremente, sobre o que está acontecendo. Porque somos obrigados a pensar de outra forma, da forma que mais convém a quem se colocar como opositor à indústria do mal. Uma incapacidade que beira a censura, e que pode ser mesmo totalmente censura.
De minha parte, experimentei esse tipo de situação há bastante tempo, por volta de 2013, quando queria colaborar com os chamados Jornalistas Livres. Fui a algumas reuniões, e além de ter percebido que o lugar era grupo de amigos (em geral, e somente), percebi também que eu teria que assinar uma cartilha (imaginária, mas real) de intenções para conseguir escrever naquele lugar. Era algo partidário, em suma, nada de livres em todo sentido. Muito ao contrário, havia, por detrás da boa intenção, uma capacidade imensa de aglutinar mensagens ao redor de lemas, de posições de ordem, que me lembravam bem a postura do PT diante dos militares. Nada que pudesse dar espaço para alguém que queria apenas fazer um jornalismo forte mas que colocasse para pensar. A intenção não era de pensar, como nunca foi. Pois bem, eles continuam por ali, sendo manipulados por uns ou por outros para causar algum estrago na mensagem liberal predominante nos círculos mais poderosos. Uma pena que o jornalismo tenha chegado a esse ponto.
A questão que fica é se tem volta. Não creio. Por um motivo claro: existe uma incongruência entre os valores que possibilitaram uma imprensa livre (e os arremedos de jornalistas restantes) e os valores que agora pregam um mundo melhor, e que se opõem em última instância à liberdade de pensamento para formadores de opinião. Diria que, diante dos posicionamentos rastejantes de muita gente que não consegue sequer fazer um silogismo direito, a maioria das empresas e das forças formadoras de opinião se vê às voltas com a necessidade por optar diante do mal menor, e isso a depender de quem está patrocinando. Ou seja, o bom mocismo de gente que deveria pensar será ainda predominante por décadas e décadas, pelo menos até que a base de conhecimento mude, e se torne mais fácil chegar a uma conclusão menos maniqueísta. É o preço a pagar por mais informação. Enquanto isso, levas e levas de pessoas navegam na ignorância, disputam opiniões a tapas, vídeos com bobagens e escândalos se tornam comuns, e o ser humano que deveria poder ter acesso a posições mais adequadas se vê a quem recorrer. Afinal, domingo vai à missa. Afinal, tem amante, e não pode pisar na bola. Afinal, também gosta de bater na mulher até para gozar melhor. Melhor deixar quieto.




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