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Uma cruz a carregar

  • Foto do escritor: Rodrigo Contrera
    Rodrigo Contrera
  • 3 de set. de 2018
  • 4 min de leitura


Peço licença para escrever um pouco sob um ponto de vista muito pessoal sobre cultura, a propósito do incêndio no Museu Nacional. Um texto para uma certa reflexão.


A primeira vez que visitei a USP foi com o propósito de visitar um museu. Isso foi em meados dos anos 80, quando eu estava terminando o então colegial. O museu era etnográfico, e eu não entendi nada da visita. Mas conheci os corredores do CRUSP, e vi a imensidão do panorama cultural daquela universidade - de longe. Iria passar ao menos 12 anos (ou bem mais, de forma intercalada) em algumas faculdades da USP. Nunca morei ali. Fiz quatro cursos de vários níveis, e alguns extracurriculares.


Sempre fui um sujeito mais afinado com as áreas exatas. Mas, por muitos motivos, me voltei mais para as humanas. Notei aos poucos, contudo, que os estudos tinham sempre uma índole prática e formadora de corações e mentes, ao invés de focados na fruição por si só dos valores da tradição, da pesquisa, e do experimentalismo da arte pela arte. Por isso também não tive professores que realmente fizeram minha cabeça. Todos pareciam querer usar a cultura para outros fins. Os afeitos ao estudo em nome de interesses políticos também iam nessa linha. Mas cultivei, por mim mesmo, a cultura da literatura (principalmente) e das artes plásticas, sem me interessar por aqueles que queriam fazer de mim massa de manobra intelectual.


Com o passar do tempo, fui percebendo a inutilidade que norteia o ensino de ciências humanas. Os professores passam boa parte do tempo tentando provar sua utilidade, ou de suas disciplinas, os alunos não conseguem ver nada útil naquilo que os professores dizem querer ensinar, a cultura predominante parece relegar tudo de humano a um segundo plano, e nós, que gostamos tanto da cultura, muitas vezes não temos com quem dialogar, pura e simplesmente. Fiz licenciatura em Filosofia, e disso resultou um relato que pode virar roteiro de longa-metragem (estou em vias de fazer isso, com o interesse de um cineasta). A política tornou a Filosofia e a Sociologia ainda mais dispensáveis, elas nem sendo importantes sequer em outras áreas, como estudos religiosos.


Nas artes, o panorama é similar. Tornei-me ator para superar uma timidez rotunda, e pude perceber também como a maior parte das pessoas não parece se interessar por espetáculos menos chamativos e mais reflexivos. Os espetáculos, nesse ímpeto, parecem sempre apelar aqui e acolá, para chamar o público, mas o ambiente para eles é em geral restrito, em bares, pequenas plateias, grupos que insistem em mensagens que ninguém parece querer ouvir. Há grandes espetáculos que lotam, sim, mas mais do âmbito do entretenimento colado aos grandes meios de comunicação. Nada realmente muito profundo.


A inanição que ronda o âmbito da cultura atinge os museus, as livrarias, e tudo mais. Porém, nesse contexto, muita gente ainda produz livros e materiais culturais. Essa gente, quase indômita, está no contexto dos livros de terror, fantasia e literatura leve. Pude perceber isso entrando em grupos de gente em geral jovem, e muito produtiva. Tem quem se mata para melhorar o texto, tem aqueles que vendem boas artes gráficas, outros que investem em marketing que cumprirem o sonho de se tornarem autores literários. Muitas dessas pessoas estudam bastante, trocam impressões, e não necessariamente buscam atalhos. Pesquisam mesmo. Há uma onda de cultura que ali chama muito a atenção.


Já as mensagens ou os comentários sobre cultura, nos sites ou nas mídias sociais, parecem mais se restringir a torcidas organizadas, a gente que diz prezar algo que no fundo não quer espalhar, a pessoas que se contentam em exibir fotos com seus livros empilhados ou espalhados. Já fui assim, sei como é isso. Gente que parece considerar que cultura é objeto de status e empáfia, e desses percebo o élan tão logo lhes leio uma ou outra linha. Eu, repito, já fui assim também. Hoje creio ter aprendido um pouco com a carência, mas talvez nem tanto. Poucos são aqueles/as que sabem que suas paixões são objeto de fruição, sim, mas sobre as quais se pode também conversar com educação.


Nesse contexto, claro que um museu de grande porte iria queimar com o descaso. É o tipo de catástrofe anunciada, por intermédio de condições criadas pela índole destruidora de um povo que não valoriza a si mesmo, principalmente. Um povo que não se preocupa com o outro, com o entorno, e para o qual tudo está relegado ao interesse imediato ou ao gozo repentino. Um povo que no fundo não quer saber como chegamos aonde estamos, e nem mesmo aonde iremos. Um povo deslocado no tempo, porque ele não lhe importa. Um povo interiormente frágil, cuja maior convicção está em ter. Um povo que se amua quando alguém fala bem. Um povo que mal sabe o que está no dicionário, e que o culpa quando o que tem não está por lá.


Porque no fundo quase todos consideram que a culpa de sua inexpressividade está com a cultura. E porque, por causa disso, prefere não dar relevância ao passado. Ou só o faz quando tem seu interesse envolvido. Reparem na sinceridade dos comentários dos políticos a respeito da queima do museu. Reparem.

 
 
 

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